Na Salvador dos anos 1960, um jovem Marcelo Nova bebia praticamente da mesma fonte musical de Raul Seixas, ouvindo Little Richard, Beatles, Rolling Stones e demais rocks vindos do exterior. Até descobrir, aos 14 anos, que em terras soteropolitanas havia o “Rock made in Bahia” de Raulzito e Os Panteras.

Marcelo era presença garantida nas primeiras filas dos shows d’Os Panteras e sonhava em um dia poder formar sua própria banda de rock. O sonho virou realidade em 1980, quando o baiano se tornou vocalista da banda Camisa de Vênus, com influências do movimento Punk Rock norte-americano.

Os membros do Camisa de Vênus conheceram Raul Seixas em uma apresentação no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 1984, quando foram informados que Raulzito viria vê-los e acabaram tocando uma seleção de covers de clássicos do Rock. Um ano depois, o roqueiro baiano, afetado pelas crises de pancreatite causadas pelo consumo excessivo de álcool, subiria ao palco em uma apresentação solo pela última vez.

Em 1986, o Camisa de Vênus regravou Ouro de Tolo em seu terceiro álbum de estúdio: Correndo o Risco. A letra ganhou uma melodia mais agressiva devido ao estilo punk da banda e uma adaptação de Corcel 73 para Monza 86. No ano seguinte, o grupo lançou o primeiro álbum duplo do rock nacional, Duplo Sentido, e convidou Raul Seixas para uma participação, que resultou na composição da faixa Muita Estrela, Pouca Constelação, uma debochada canção sobre o cenário musical tupiniquim.

Imediatamente após o lançamento de Duplo Sentido, Marcelo Nova anunciou uma carreira solo com a banda de apoio Envergadura Moral. Em 1988, antes de uma apresentação em Salvador, encontrou Raul Seixas, com quem mantinha amizade desde 1984, e convence o conterrâneo a voltar aos palcos após três anos recluso.

Raul Seixas e Marcelo Nova 5
Raulzito e Marceleza lotaram casas de shows Brasil afora

A participação especial na apresentação na capital da Bahia terminou numa série de 50 shows por todo o Brasil entre 1988 e 1989. Paralelamente, a dupla trabalhou na elaboração de um álbum, intitulado A Panela do Diabo, como provocação aos fanáticos religiosos que panfletavam calúnias contra os baianos antes de seus shows.

Raulzito estava visivelmente debilitado, como consequência da pancreatite que o acometia. Tanto que participava apenas de metade dos shows, sendo a primeira parte sempre executada apenas por Marcelo Nova. Mesmo assim, todos os compromissos foram cumpridos e Raul Seixas morreu dois dias após o lançamento de A Panela do Diabo.

Inevitavelmente, Marcelo Nova foi considerado uma espécie de herdeiro da obra de Raul, rótulo esse, porém, que sempre rejeitou. “A dimensão de sua obra deixada em vinte e tantos LPs não deixam herdeiro. Existem certos artistas que, pelo tempo em que surgiram e agiram, se tornam únicos”, declarou Marceleza.