Em 1984, Raul Seixas convida o amigo Sylvio Passos, presidente do Raul Rock Club, para compor a música Anarkilópolis, que deveria entrar no LP Metrô Linha 743, que estava sendo gravado pela Som Livre. A base seria uma letra que Raulzito havia composto há mais de dez anos, chamada Cowboy 73.

Da letra de Cowboy 73, rabiscada num caderno espiral, aproveitou-se apenas o refrão: “Eu não sou besta pra tirar onda de herói / Sou vacinado, sou cowboy / Cowboy 73”, adaptando-se para “cowboy fora-da-lei”. No entanto, Anarkilópolis ficou de fora do disco. Raul havia gravado a canção embrigado, após uma briga com sua esposa, e a Som Livre não quis atrasar o lançamento do LP para regravar a canção.

Com a letra na gaveta, Raulzito convidou o parceiro Claudio Roberto para reescrever a canção em 1986. E assim nasceu a versão de Cowboy Fora-da-Lei que se tornou sucesso em todo o Brasil no ano seguinte, lançada no álbum Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!. A canção entrou para a trilha sonora da novela Brega & Chique, da TV Globo, ganhando clipe no Fantástico e disco de ouro pelas vendas.

Quanto a origem da letra, Cowboy Fora-da-Lei defende a máxima de que “mais vale um covarde vivo do que um herói morto”. A canção resgata o antigo medo (e paranoia) que Raulzito tinha de ser assassinado, como John Lennon, e usa Tancredo Neves como exemplo logo no início da música: “Mamãe não quero ser prefeito / Pode ser que eu seja eleito / e alguém pode querer me assassinar”.

Em 1985, Tancredo Neves adoeceu gravemente após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional como o primeiro presidente civil após 20 anos de ditadura militar. Com sua morte, a presidência caiu no colo de José Sarney, eleito vice-presidente. Na época, foram alimentadas teorias de conspiração alegando que Tancredo, na realidade, tinha sido assassinado a mando do regime ditatorial.

Inclusive, em Cowboy Fora-da-Lei, Raul contesta a versão oficial divulgada pela imprensa, de que o futuro presidente do Brasil tinha coincidentemente adoecido antes da posse: “Eu não preciso ler jornais / Mentir sozinho eu sou capaz”. Ainda há uma possível comparação com Jesus Cristo, pelo fato de Tancredo ter “partido tão cedo”.

O refrão reforça essa ideia, pois Raul canta que “não é besta para tirar onda de herói”. E completa: “Durango Kid só existe no gibi”, fazendo referência ao cowboy fictício do cinema e dos quadrinhos. Isto é, a mensagem é de que o heroísmo só existe na ficção, porque na realidade os heróis pagam seus atos com a vida.