Um dos episódios mais conhecidos da vida de Raul Seixas foi seu suposto encontro com John Lennon, em 1974, durante o exílio nos Estados Unidos. Suposto porque não há registros dessa lendária reunião entre Raulzito e o ex-beatle, além das declarações do próprio roqueiro e de seu parceiro musical na época, o escritor Paulo Coelho, em entrevistas ao longo dos anos.

Há quem duvide da história. O ex-diretor artístico da gravadora Philips, Roberto Menescal, já afirmou que o suposto encontro de Lennon foi puro golpe publicitário, bem como a história de Raulzito ter tocado com Jerry Lee Lewis numa boate no Tennesse. Seria tudo uma estratégia de Raul, que ainda estava em começo de carreira, para ganhar destaque na imprensa.

Envolvido diretamente na história, Paulo Coelho nunca negou a história e mantém arquivado um “boletim informativo” sobre a viagem a Nova Iorque em 1974 e o encontro não só com John Lennon, mas com Yoko Ono. Nesse documento, os fatos são narrados pelo próprio Raul Seixas e revelam que a dupla brasileira buscou um reconhecimento formal da Sociedade Alternativa.

Afinal, eram exatamente as sociedades alternativas o ponto em comum naquela época entre Lennon, Yoko, Raul e Paulo. Vale lembrar que o ex-beatle tornou-se uma pedra no sapato do governo norte-americano devido ao seu intenso ativismo político contra a Guerra do Vietnã, a ponto de a administração do presidente Richard Nixon tentar deportá-lo para o Reino Unido em 1972.

Lennon e Yoko reagiram anunciando ao mundo em 1973 a criação da comunidade alternativa Nutopia (do inglês new utopia), uma nação sem território ou fronteiras, tampouco passaportes, da qual eles eram embaixadores. Como tais, pediram imunidade diplomática para as Nações Unidas. A ONU acabou não dando esse reconhecimento, mas  o músico britânico tampouco foi deportado.

Um ano depois, Seixas e Coelho criaram uma organização similar: a Sociedade Alternativa. E queriam debatê-la com Lennon. O “boletim informativo” narrado por Raul garante que esse objetivo foi cumprido e tanto o ex-beatle quanto Yoko (que estavam separados naquele ano) demonstraram uma preocupação de que as sociedades alternativas fossem “engolidas pelo sistema”, tal qual o movimento hippie.

Em entrevistas, Raulzito dava mais detalhes do encontro. Dizia que ficou por três dias com Lennon, mas não sem antes presenciar um incidente com a imprensa. Um jornalista da revista O Cruzeiro teria sido expulso do apartamento do ex-beatle por perguntar sobre o fim de seu relacionamento com Yoko.

Superado o conflito, o roqueiro baiano sempre relatou que manteve grandes diálogos com o músico britânico. Além de sociedades alternativas, teriam conversado sobre grandes figuras da história da humanidade, de Jesus Cristo a Mahatma Gandhi, de Calígula a Nero. Foi quando Lennon mostrou interesse no Brasil e perguntou qual a grande personalidade do país. “Fiquei nervoso, não tinha ninguém. Respondi qualquer Café Filho…”, contava Raul, aos risos.

Mesmo que o encontro não seja verdadeiro, seu relato ganhou mais relevância do que um simples golpe publicitário, tornando-se com o passar dos anos uma sutil crítica a construção do Brasil como nação, a mesma que pode ser vista de maneira bem mais explícita na música Não Fosse o Cabral, de 1983: “Nós não temos história, é uma vida sem vitória, e eu duvido que isso vai mudar!”.