Uma das mais célebres entrevistas de Raul Seixas foi concedida ao jornalista e crítico musical Tárik de Souza e publicada na edição nº 228 do jornal O Pasquim, em novembro de 1973. Raulzito estava em início de carreira e havia alcançado projeção nacional com seu LP Krig-Ha, Bandolo!, numa fase em que prosperava a parceria com Paulo Coelho ao mesmo tempo em que o cantor se aprofundava em estudos sobre esoterismo e misticismo. Confira:

Fino, atilado, esguio e afiado. Raul Seixas corta como uma navalha. Que ainda não foi inventada, porque tem gumes em todas as direções. E não se conduz para um lado determinado. “Vou dizer agora, o contrário do que disse antes” (nem todo mundo vai entender isso, mas paciência). Nos seus 28 anos, fala para a juventude alegre e sadia, sabendo que muita gente abotoou fones nos ouvidos porque não quer saber. “Só vim cânter meu rockzinho antigo, que nem tem perigo de assustar ninguém”. E, no show, sua espinha se dobra, ele verga, joga os braços para trás, flexiona os joelhos obedecendo ao rock, apenas isso. Nem é um grande músico, finge tocar guitarra, que os momentos de ator não terminam no palco. Ele aprendeu as regras desde quando produzia Jerry Adriani, protegido por óculos enormes, vagando nos corredores das gravadoras.

De repente, sorri como quem se desarma e aí parece que tudo lhe custa um certo espanto. Mas ele quer saber, mesmo que o preço seja um certo ar demagógico do rock, ele dança (um dia ajudou a fabricar outros mitos) e agora canta, no ritmo da dúvida. Nem exclamação, nem ponto final: reticências.

Tárik de Souza

O Pasquim – Você surgiu publicamente com Ouro de Tolo. Mas nós queremos que você conte o seu início, desde o princípio mesmo.
Raul Seixas – Vamos ver. Vamos voltar a 1959. Eu tinha um conjunto de rock, lá em Salvador. Foi o primeiro conjunto de rock que surgiu lá em Salvador. Eu morava perto de uns garotos do consulado, e eles me apresentaram uns discos de rock…

O Pasquim – Qual consulado?
Raul Seixas – O americano. Tava aquela coisa acontecendo nos Estados Unidos e nós tomamos conhecimento. Nós fizemos um conjunto de rock em Salvador, e a gente viajava pra todo interior, fazendo aquela coisa, assumindo mesmo, vivendo aquela coisa da época.

O Pasquim – Como chamava o conjunto?
Raul Seixas – Os Panteras. Porque todo conjunto daquela época chamava de bicho.

O Pasquim – Cantando rock?
Raul Seixas – É. Cantava rock misturado com baião. Cantava música de Luiz Gonzaga também, uma coisa completamente surrealista. Não tinha nada a ver, com uma iluminação louca. E as mães tirando as crianças de perto. Diziam que eu era esquizofrênico. Uma reação incrível.

O Pasquim – Era um conjunto de quantos?
Raul Seixas – Eram quatro pessoas. Guitarra, Baixo, Bateria.

O Pasquim – Alguns desses caras tão aí tocando ainda?
Raul Seixas – Não. Um é chofer de táxi, o outro se formou em Engenharia, um tá agora nos Estados Unidos, e o outro não sei, acho que tá estudando Direito. Eu também estudei Direito.

O Pasquim – Krig-Ha, onde fica?
Raul Seixas – Krig-Ha seria um rótulo. É uma sociedade que existe hoje no mundo inteiro, com vários nomes. Aqui no Brasil nós batizamos com o nome Krig-Ha, que é o grito de guerra do Tarzan. Você deve ter lido Tarzan, né? Krig-Ha significa “cuidado”!

O Pasquim – Bandolo é “inimigo”, né?
Raul Seixas – É. “Aí vem o inimigo”. Tinha o dicionário de Tarzan na primeira página. Você lia e tinha a tradução. Eu sabia aquilo decorado. Mas essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro acontecimento que essa sociedade promoveu foi o disco, o LP Krig-Ha, Bandolo!.

O Pasquim – E aquele símbolo da sociedade? A chave?
Raul Seixas – Aquele símbolo é o símbolo de Amon-Rá, acrescido de uma chave. Esse símbolo tem uma história interessante. Quando o Paulo Coelho, meu parceiro, estava em Amsterdã, em 1967, ele tava usando um símbolo hippie no pescoço. E veio um sujeito estranhíssimo e arrancou o símbolo do peito dele e colocou esse símbolo, sem a chave. E disse: “Não é nada disso. Agora é isso”. Ele ficou assustadíssimo com aquele símbolo no pescoço, mas começou a usar. E nós fomos uma vez, há pouco tempo, escrever uma peça, que nós vamos lançar para o ano. Fomos lá em Mato Grosso, numa tribo de índio. E uma barraquinha de índio tava vendendo esse mesmo símbolo. Uma coisa incrível.

O Pasquim – Inclusive com a chave?
Raul Seixas – Com a chave. Aí nós questionamos ele: “Por que você fez esse símbolo?” Era de lata. Ele falou que não sabia por quê. Aconteceu, ele fez assim. Nós batizamos o símbolo como se fosse o símbolo da sociedade.

O Pasquim – Fale um pouco mais dessa sociedade.
Raul Seixas – Como eu estava dizendo, essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro foi o LP. O segundo foi uma procissão, que foi muito bem-sucedida, foi muito bonita. A gente levou uma bandeira na rua. Uma explosão. Porque vocês sabem que tem havido uma série de implosões. Nós saímos à rua, cantando, foi muito bonito. E a terceira foi esse show de teatro, esse show que nós estamos fazendo agora. E a quarta vai ser o Piquenique do Papo. Nós vamos convidar todos os artistas, de todos os campos, os comunicadores, de artes plásticas, de cinema, de teatro. E vamos fazer um piquenique bem suburbano, no Jardim Botânico. Levando galinha, sanduíche. Todo mundo. Pra conversar. Um rapaz já se prontificou a fazer um discurso sobre A Maldade das Formigas.

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Raul e Paulo na procissão Ouro de Tolo, pelas ruas do Rio de Janeiro, em 1973

O Pasquim – Qual é o fim específico da sociedade? A que ela se propõe, ela segue uma “filosofia”?
Raul Seixas – Essa sociedade não surgiu imposta por nenhuma verdade, por um líder. Não houve liderança no mundo inteiro, como se fosse uma tomada de consciência de uma nova tática, de novos meios.

O Pasquim – Tática em relação a que?
Raul Seixas – Uma tática de novos métodos em relação à melhoria dos coisas.

O Pasquim – Da própria sociedade?
Raul Seixas – É, do próprio mecanismo da coisa. Nós estamos correspondendo com pessoas que fazem parte dessa sociedade, inclusive John Lennon e Yoko Ono. Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome. Nós mantemos uma correspondência constante com eles.

O Pasquim – Voltando à tua biografia. Depois de cantor de rock lá da Bahia, como foi? Como é que você veio pintar aqui no Rio?
Raul Seixas – Eu estava estudando Direito, Filosofia e Psicologia. Depois eu larguei tudo quando tomei conhecimento da Antipsiquiatria. Achei maravilhoso, e larguei esse negócio de Psicologia, larguei Direito no primeiro ano, deixei a Faculdade de Filosofia também. Casei, em 1967, e vim aqui pro Rio.

O Pasquim – “Inocente, puro e besta”.
Raul Seixas – Exatamente. Cheguei aqui sem um tostão no bolso.

O Pasquim – Raul, você lá em Salvador, quando você fez esse conjunto de rock, em 1959, ouvia que música? Cê ouvia rádio? Como é que era o teu pessoal, tua família? Classe média?
Raul Seixas – Classe média. Meu pai era engenheiro da estrada de ferro. Agora ele é aposentado. Minha mãe é dona-de-casa.

O Pasquim – Você ouvia o João Gilberto na época?
Raul Seixas – Eu gostava de João Gilberto. Eu gostava muito.

O Pasquim – Porque a bossa nova na época era superelitista, achava que rock era um negócio de segunda categoria, Celly Campello etc.
Raul Seixas – Exato. Existia um certo conflito. Existiam dois grupos lá, o grupo de rock e o grupo de bossa nova, ali no Teatro Vila Velha. Um olhava o outro com… sabe? Meio esquisito.

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Raul no festival Phono 73

O Pasquim – Você poderia explicar sua formação literária, como você chegou a esse texto?
Raul Seixas – Isso aí é uma coisa interessante. Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Eu sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú que eu penso em publicar algum dia. Eu sou muito dado a filosofias, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando as outras coisas. Estudei literatura. Comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá pra publicar.

O Pasquim – Você teve a intuição de que a música seria um veículo mais imediato de comunicação?
Raul Seixas – Essa tomada de consciência que eu tive foi há pouco tempo, uns dois anos atrás. Porque eu usava a música por música. E, por outro lado, eu queria atingir uma coisa pela literatura. Mas eu vi que a literatura é uma coisa dificílima de fazer aqui, de comunicar tão rapidamente como a música. Eu tive uma escola muito importante, que foi a CBS. Passei dois anos na CBS como produtor de discos de Jerry Adriani, de Wanderléa, daquela coisa toda de iê-iê-iê. Eu produzia disco para Trio Ternura, aquele pessoal. Foi uma vivência fantástica pra mim. Aprendi muito a comunicar.

O Pasquim – E o Paulo Coelho, teu parceiro?
Raul Seixas – Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às 17 horas eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos o disco voador.

O Pasquim – Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo disco voador de novo. Como foi isso?
Raul Seixas – Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing.

O Pasquim – Ano passado.
Raul Seixas – Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa pro lado sensacionalista: O CARA QUE VIU O DISCO VOADOR. “O Profeta do Apocalipse.” Eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco muito bonito.

O Pasquim – Dá pra descrever o disco?
Raul Seixas – Dá sim. Foi… era meio assim… prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta. Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: “Cê tá vendo o que eu tô vendo?” A gente aí sentou e o disco sumiu num ziguezague incrível.

O Pasquim – Durou quanto tempo mais ou menos?
Raul Seixas – Uns dez minutos.

O Pasquim – Fazendo manobras?
Raul Seixas – Não. Parado, estático. O Paulo chegou e nós começamos a conversar, sentados. Foi como se a gente tivesse feito uma viagem no próprio disco. E vendo a problemática toda do planeta.

O Pasquim – A que você atribui essa aparição?
Raul Seixas – Não é aparição. Tava lá, real, palpável. Bonito.

O Pasquim – Não seria resultado da meditação?
Raul Seixas – Não, que nada.

O Pasquim – Qual foi o efeito que esse disco causou em você?
Raul SeixasOuro de Tolo, que pintou aí. Essa música.

O Pasquim – Saiu uma matéria aí dizendo que você, de certa forma, ficou chateado com a exploração que fizeram deste disco. Usaram muito este disco pra dizer que você…
Raul Seixas – … era maluco, né?

O Pasquim – Não, te colocaram como místico, um negócio assim. Esse disco voador foi pras paradas de sucesso.
Raul Seixas – Falta do que dizer. Não se tem mais o que falar hoje. Tem que se falar mesmo neste lado de disco voador, profeta do apocalipse. O homem que viu o disco voador dá Ibope, chamam ele pro Silvio Santos, ele vai pro Silvio Santos. “Como foi, meu filho?” Sabe como?

O Pasquim – Independente dessa sociedade, é claro, e das coisas em que acredita, você não acha que o tipo de atitude que você toma publicamente influi nisso? O fato de colocar nas suas entrevistas que você viu um disco voador, o fato de você ter feito sua procissão e a entrevista que você deu à Manchete dentro do avião no aterro…
Raul Seixas – Ah, sim. Vocês leram aquilo?

O Pasquim – Não, que você tinha dado a entrevista.
Raul Seixas – Aquela foi gozadíssima. Ela ligou lá pra casa e disse: “Eu quero fazer uma matéria com você”. Eu disse: “Pois não, mas eu tenho que fazer uma viagem de avião. Eu só dou entrevista dentro do avião”. Era aquele avião que tem lá no aterro. Aí nós fomos pro avião, 16 horas. Ela já tava me esperando lá. E Paulo Coelho com a mala. Todos nós entramos no avião. “Cê tá gostando da viagem?” Pusemos o cinto de segurança. E ela com um medo de fazer a entrevista, um medo horrível de mim. Aí surgiu a aeromoça, que era minha mulher, servindo sanduíche, cafezinho. Ela ficou apavoradíssima. Mas foi uma brincadeira que nós fizemos, para usar a imaginação.

O Pasquim – Isso tá subordinado a uma filosofia geral de trabalho em cima de humor, correto?
Raul Seixas – E a ironia.

O Pasquim – E a ironia. Essa tua atuação faria parte de tua filosofia de trabalho?
Raul Seixas – Faz parte, sim

O Pasquim – Mas ela não poderia soar para certas pessoas como um esquema promocional, uma jogada promocional?
Raul Seixas – É, mas chega um certo ponto em que esse manto… No princípio pode parecer, mas com o encaminhar das coisas o véu vai cair. Isso é indubitável.

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O Pasquim – Explica a peça. A peça foi escrita por você mesmo?
Raul Seixas – Ela foi escrita por mim e Paulo Coelho. Não é uma peça, nem é um show, é um autodi.

O Pasquim – É um happening
Raul Seixas – Não., é um autodi. Uma coisa que nós batizamos de autodi. Pra não ficar naquele esquema somente de show, em que o cara pega o microfone e canta. Nós usamos muitos elementos plásticos, usamos muito teatro, cinema. É uma coisa muito rica, muito bonita, e é toda envolta num magicismo. É pena que eu não tenha o roteiro para mostrar pra vocês. Tem uma única pessoa que trabalha comigo, é um ator-vampiro.

O Pasquim – É um ator-vampiro ou é um ator que vai fazer papel de vampiro?
Raul Seixas – É a segunda. É o Osvaldo, o mesmo que vai fazer o discurso sobre A Maldade das Formigas no piquenique.

O Pasquim – Isso nos interessa! O magicismo. Os sinais, suas letras, tá tudo ligado a um magicismo seu. Você brinca muito com isso não? Iê-iê-iê realista, magicismo, ironia, mágica, seja lá o que for. Pra botar isso bem curto: qualé?
Raul Seixas – Vamos citar o Apocalipse bíblico. Foi escrito numa época incrível, você tinha que falar uma linguagem simbólica, uma linguagem mágica. Mas o Apocalipse é uma coisa que se adapta a qualquer época.

O Pasquim – Principalmente a atual. É, algumas épocas mais do que as outras, alguns lugares mais do que os outros.
Raul Seixas – É quase a mesma linguagem que nós estamos usando pra tentar dizer, tentar chegar a um objetivo. Não é um objetivo de uma verdade absoluta, porque ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais.

O Pasquim – Então você quer abrir uma porta na cabeça de quem está ouvindo. Não há uma hora em que fecha de repente? O perigo de fazer essas coisas, o perigo do magicismo, da maneira de dizer as coisas…
Raul Seixas – É uma escada.

O Pasquim – Mas ao mesmo tempo há perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?
Raul Seixas – Não. É uma escada, é um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase “Terra” da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio já é outra coisa, já é mais aberto. Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima, eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar aonde eu estou, porque se ele chegar aonde eu estou não vou comunicar mais.

O Pasquim – Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?
Raul Seixas – Esse Raul Seixas que está no Teatro Tereza Raquel cantando esse tipo de música, fazendo iê-iê-iê realista, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical, kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.

O Pasquim – Você faz isso mais pra entender ou pra que os outros entendam?
Raul Seixas – Pra que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as “classes”, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando a Mosca na Sopa.

O Pasquim – Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.
Raul Seixas – Não, que isso? Sabe por quê? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.

O Pasquim – Mas o magicismo pode cair.
Raul Seixas – Mas é um magicismo estudado. É dosado, nego. Dosadinho.

O Pasquim – Se você não estiver muito sob controle, pode cair nisso. Isso exige um tremendo autocontrole, conhecimento de si próprio, senão você embarca no próprio som do que você tá dizendo. Tem que saber o que você tá fazendo.
Raul Seixas – Eu tô fazendo.

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O Pasquim – É isso que preocupa, se você está consciente. Ô, Raul, como é que você vê os seus contemporâneos no Brasil? Os que fazem outras ciosas, que escrevem romances, fazem poesias, trabalham em jornal, televisão etc.
Raul Seixas – Como eu vejo a realidade? Isso aí é fogo, rapaz.

O Pasquim – Use o magicismo.
Raul Seixas – Peraí. Eu vou falar uma coisa aqui. Eu vou falar sobre os cabeludos. Eu li outro dia um negócio de Pasolini na Veja, vocês leram? Achei fantástico. Você não sabe mais quem é quem. Tá aquela coisa de cabeludo, tá todo mundo estereotipado. Por isso é que faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo Schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de audiovisuaizinhos. Minha mulher fala comigo que eu não devo fazer isso com eles, porque a garotada tá sabendo. Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo coisa em termos globais. E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco do rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não fica de fora fazendo bobagem, de calça Levis com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como John Lennon disse, they think they’re so classless and free. Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo comendo alpiste, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.

O Pasquim – Quer dizer que você conclui que os intelectuais brasileiros estão muito por fora, muito devagar. Não estão dentro da realidade. Toda essa sua estratégia é para ficar amigo do rato.
Raul Seixas – Dos ratos. Há o plural.

O Pasquim – Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. Produzia discos de Jerry Adriani, Wanderléa…
Raul Seixas – Renato e seus Blue Caps. Eu acho muito bom, eu acho legal.

O Pasquim – A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como é que era tua transa pessoal com essa gente?
Raul Seixas – Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconsequente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso ia aprendendo a usar aquele mecanismo.

O Pasquim – Você estava de rato?
Raul Seixas – Exatamente. Eu estava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a ideia de eu contratar Sérgio Sampaio e Edith Cooper, que é uma boneca lá da Bahia, um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta a Sessão das 10. Mas o disco misteriosamente foi retirado do mercado. Desapareceu. A CBS tirou o disco do mercado porque não era a linha CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora, foi quando eu comecei a fazer o trabalho. Era um disco que mostrava o panorama atual, o que tava acontecendo, o caos toda daquela época. O cãozinho bonitinho que tava acontecendo naquela época. Eu gravei jazz com The Fevers, gravei marchinhas. Guilherme Araújo acha que o disco é precursor dos Novos Baionos. É um disco bem brasileiro, sabe?

O Pasquim – Com Miriam Batucada.
Raul Seixas – Miriam Batucada no meio vestida de Super-Homem. Foi naquela fase do hippie, aquela coisa toda. Adoro o disco, acho sensacional. Acho inclusive mais bonito do que esse que gravei agora.

O Pasquim – Aí você foi expulso da CBS.
Raul Seixas – Fui expulso em função desse LP. E também porque eu fui no Festival Internacional da Canção, cantar Let Me Sing.

O Pasquim – Eles não queriam isso?
Raul Seixas – Não. Eles disseram: “Ou você é produtor ou você é cantor”. Eu tinha que optar.

O Pasquim – Raul, o que te levou até o hermetismo? O que você andou fazendo de coisas herméticas, e o que te deu a noção do equilíbrio?
Raul Seixas – Foi o primeiro LP que gravei na Odeon. Foi um LP louco, rapaz. Um LP extremamente filosófico, metafísico, ontológico, que falava em sete xícaras, ou seja, as sete perguntas aristotélicas. Ou seja, as fontes do conhecimento.

O Pasquim – Vendeu quanto?
Raul Seixas – Nada.

O Pasquim – Foi quando isso?
Raul Seixas – Em 1967. Logo que eu cheguei aqui fui contratado pela Odeon.

O Pasquim – Como é que chamava o disco?
Raul SeixasRaulzito e seus Panteras.

O Pasquim – A Odeon vai reeditar agora?
Raul Seixas – Vai reeditar? Mas que absurdo. Esse disco falava por quê? Pra quê? Porque o azul é azul, o lilás é lilás. Uma loucura, porque o mel é doce. De que o mel é doce / é coisa que eu me nego a afirmar / mas que parece doce / é coisa que eu afirmo plenamente.

O Pasquim – Sobre o teu relacionamento com o Jerry Adriani. Ele tinha falado, numa entrevista para Opinião, tinha se colocado como um cara que te protegeu, que te recebeu aqui no Rio, que te fez.
Raul Seixas – Foi, sim. Foi, porque eu cheguei aqui sem um tostão no bolso. Meu pai tinha uma fabricazinha de materiais elétricos. Quando eu casei, ele me deu um carro, um apartamento. Ele me deu o trabalho de sócio, lá em Salvador, da sua fábrica.

O Pasquim – Você ainda é sócio?
Raul Seixas – Não, eu larguei tudo. Passei uma semana de lua-de-mel no apartamento que ele me deu, depois vim pro Rio sem um tostão. O Jerry me chamou e eu fui ser pandeirista, tocar pandeiro pra Jerry Adriani. Eu tocava pandeiro, depois guitarra, contrabaixo, e fazia os arranjos para as músicas dele. Foi assim que eu comecei. Fiquei aqui um certo tempo, tocando com o Jerry. Mas depois nada deu certo. Passei dois anos de fome na Cidade maravilhosa, como eu disse na música Ouro de Tolo. Depois voltei pra Bahia, me tratei um ano e pouco com psiquiatra. Completamente pirado. Voltei pra morar com meu pai. Já casado. Ele tinha vendido o apartamento que tinha me dado, tinha se aborrecido comigo.

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O Pasquim – Raul, você tem filhos?
Raul Seixas – Tenho uma filha.

O Pasquim – E irmãos?
Raul Seixas – Tenho um irmão. Então eu voltei a morar lá com eles. Eu dei uma de doido, comecei a estudar Filosofia de novo. Ficava trancado num quarto, acendia a luzinha vermelha. Estraguei minha vista por causa disso, e tive que usar óculos. Eu ficava lá o dia inteiro, não falava com ninguém. Quem me sustentava era minha mulher, que ensinava inglês no Yázigi. Ela é americana. E quando ela juntou uma bolada de dinheiro pra gente comprar um apartamento, pra ver se a gente saía da casa de meus pais, eu comprei uma motocicleta. Saía pelas ruas às 5 horas, feito um louco, debaixo de chuva, gritando em cima da motocicleta. Eu tava louco. Inclusive é uma fase meio obscura que eu não consigo lembrar direito. Foi uma barra. Depois chegou o diretor da CBS e falou: “Olha, você trabalhava com o Jerry, você fez uma música muito boa pra ele que chama Tudo o que é bom dura pouco“. Vocês lembram dessa música? Eu sei que tudo que é bom dura pouco.

O Pasquim – Qual foi a influência que sua mulher teve em você?
Raul Seixas – Ela é filha de um pastor protestante. Ela é muito versada na Bíblia, tocava órgão na igreja. O pai dela viajava muito, pelo mundo inteiro, pregando. Mas ela teve sempre uma posição que não era muito a posição do pai dela; ela tinha uma visão mais aberta da coisa. Quando ela me conheceu, sei lá, é coisa mesmo de entrosamento. Uma influência fantástica que ela exerceu sobre mim foi a cultura bíblica, que eu acho uma coisa interessantíssima. E ela participa também do trabalho. Ela faz luz, cenário, ela é quem transa as minhas roupas, compõe comigo. Ela participa, e a gente transa muito junto.

O Pasquim – Em 1959, você fazia rock na Bahia. Você conheceu Caetano e Gil na Bahia?
Raul Seixas – Conheci o Gil.

O Pasquim – Isso foi antes do tempo de Gessy Lever?
Raul Seixas – Do tempo que eu fazia jingle também. Só que eu fazia jingle rock e ele fazia jingle bossa-nova. A gente se conhecia, 1959, 1960, por aí.

O Pasquim – Depois desse contato, como é que foi ficando? Distante?
Raul Seixas – Era uma coisa lá e outra aqui. Nós tínhamos um lugar, o cinema Roma, onde a gente promovia shows de rock.

O Pasquim – Bossa nova não?
Raul Seixas – Bossa nova era no teatro Vila Velha. Era uma coisa bem separada mesmo. Existia um conjunto lá, a Orquestra de Carlito, com Caetano e Gil. E existia Os Panteras. Duas coisas completamente diversas. Mas no fundo eu acho que tava todo mundo querendo chegar à mesma coisa, era só problema de linguagem.

O Pasquim – Esse contato ainda existe?
Raul Seixas – Claro, claro. Desde o tempo da Tropicália que a gente começou a ver que era isso mesmo, que todo mundo queria mesma coisa.

O Pasquim – Raul, o pessoal que viu o show em São Paulo diz que, além da crítica leve que você fez ao Roberto Carlos, tinha uma crítica ao Caetano também.
Raul Seixas – Tinha não.

O Pasquim – E a crítica ao Roberto?
Raul Seixas – É uma brincadeira. Porque quando Ouro de Tolo saiu, tava saindo uma música do Roberto em que ele agradece ao Senhor pelas coisas recebidas. Ele disse que agradece, eu digo que eu devia agradecer. Foi isso que os caras pescaram.

O Pasquim – Você está a fim de ocupar a vaga de guru que o Caetano Veloso deixou?
Raul Seixas – Eu não sei se é isso, não. Acho que Caetano tá sabendo o que tá fazendo. Ele sabe exatamente.

O Pasquim – Caetano era guru ou não era?
Raul Seixas – Não… Eu acho que ele não assumiu esse negócio de guru. Eu acho que viram ele como uma tábua de salvação, as pessoas tavam precisando dele, tava na hora de um apoio. Então escolheram o Caetano.

O Pasquim – Ele ainda é o líder?
Raul Seixas – O que você acha?

O Pasquim – Eu acho que é. E você o que acha?
Raul Seixas – Eu acho que tanto Caetano como Gil, embora sendo trabalhos diferentes, são incríveis.

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O Pasquim – Você falou sobre Caetano e Gil, falou sobre Jonh Lennon. E a sua influência do Bob Dylan?
Raul Seixas – Isso é engraçado, todo mundo fala sobre esse negócio do Bob Dylan. Eu gosto de Dylan, mas não foi uma coisa marcante.

O PasquimOuro de Tolo tem uma influência.
Raul Seixas – A letra de Ouro de Tolo saiu antes da música. Veio a letra primeiro. Eu só podia dizer aquela monstruosidade de letra quase só falando. Então calhou. Aquela coisa de Dylan, falada, calhou.

O Pasquim – No ato de compor, o que vem primeiro na maioria dos casos, a letra ou a música?
Raul Seixas – Geralmente vêm juntas.

O Pasquim – Seu espetáculo é aplaudido com um entusiasmo, digamos assim, com uma zorra total no teatro. Isso pode ser a força de seu recado. Um recado tão forte que o pessoal quer aplaudir, mas o recado ainda está um pouco na frente do momento. O que você acha?
Raul Seixas – Eu não vou dizer por mim, mas Paulo Coelho acha isso. Ele acha que as pessoas ainda estão em dúvida, estão com um certo receio, assustam um pouco.

O Pasquim – Raul, você falou sobre a sociedade. E outros planos para o futuro?
Raul Seixas – Eu já tô com o meu segundo LP na cabeça. É como um degrau. Eu dividi o trabalho em quatro fases, simbólicas, é claro, dentro daquilo que nós já falamos, de magicismo. Fase Terra, Fase Fogo, Fase Água e Fase Ar. Somente com a identificação. Essa fase fogo vai ser diferente dessa, dentro do mesmo tipo de música, mas não exatamente iê-iê-iê. É outra coisa, eu prefiro que seja surpresa. Vejam depois de pronto. Eu tô seguindo uma orientação geral, em que eu recebo e dou informações. Em todos os quatro cantos do mundo, a gente tá sempre recebendo, tá tendo informações. Essa outra fase é uma fase de escada mesmo. Um lugar que você vai chegando gradativamente, sabendo aos poucos.

O Pasquim – Basicamente que público você atinge?
Raul Seixas – Todas as classes. Isso é que é bom. Sabe por quê? Eles assimilaram Ouro de Tolo dentro de níveis diferentes, mas no fundo era a mesma coisa. O intelectual recebia de uma maneira, o operário de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: “Eu devia estar feliz por que eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí…” Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aí. E as cartas que eu recebi da revista POP, que fez uma transação aí, negócio de “Diga o que você acha da música Ouro de Tolo“. Veio do Brasil inteiro. Fantásticas aquelas cartas, eu guardo um monte. Eu li essas cartas todas. Todo mundo entendeu, dentro de uma conotação própria, dentro de um nível diferente. Eu achei fantástico isso. Quer dizer que tá funcionando.

O Pasquim – Você tem algo a declarar para as novas gerações?
Raul Seixas – Não, é uma juventude sadia, alegre, satisfeita, feliz e contente. Comendo alpiste. Amém.