À primeira vista pode não parecer, mas Eu Também Vou Reclamar é uma das músicas mais provocativas da discografia de Raul Seixas. No entanto, como faz muitas referências a fatos da época em que foi lançada, isto é, 1976, é necessário prestar atenção ao contexto daquele ano para compreender as ácidas críticas do magro abusado.

O título Eu Também Vou Reclamar já diz a que veio a canção. Raul, com a ironia que lhe é peculiar, aproveita a onda de músicas de protestos que tomava a Música Popular Brasileira para também fazer a sua (de maneira satírica, obviamente) e lembrar que ele foi pioneiro nesse campo.

Mas é que/ Se agora pra fazer sucesso/ Pra vender disco de protesto/ Todo mundo tem que reclamar/ Eu vou tirar meu pé da estrada/ E vou entrar também nessa jogada/ E vamos ver agora quem é que vai aguentar/ Porque eu fui o primeiro/ E já passou tanto janeiro/ Mas se todos gostam eu vou voltar

Era um puxão de orelha nada discreto em Belchior e companhia limitada. Uma cobrança de Raul Seixas, que desde seu primeiro disco, em 1973, já batia de frente com a Ditadura em seus anos de chumbo, em pleno governo Médici. Nas entrelinhas, o roqueiro baiano dizia que naquela altura, com a abertura política em andamento buscando amansar a linha-dura do Regime, era bem mais fácil ser crítico dos militares.

A bronca de Raul com aqueles que não buscavam suas maneiras de lutar contra a Ditadura Militar brasileira não era exatamente uma novidade. Em 1974, o álbum Gita trazia outra canção ácida em parceria com Paulo Coelho: Super-Heróis citava nominalmente aqueles que fingiam que estava tudo bem no país, agindo como se o Brasil não vivesse um regime de exceção, sob mão de ferro dos militares. Eram os Super-Heróis da alienação.

Voltando a 1976, a referência a Belchior ocorre quando Raul diz que é “apenas um latino-americano que não tem cheiro nem sabor”. Foi exatamente naquele ano que o cantor cearense lançou seu consagrado álbum Alucinação, com o arrebatador sucesso de Apenas um Rapaz Latino-Americano. Vale lembrar que Eu Também Vou Reclamar foi lançada somente em dezembro, no LP Há 10 Mil Anos Atrás.

Sobrou também para Silvio Brito, que no anterior lançara as faixas de protesto Espelho MágicoTô Vendendo Grilo. “Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos: pare o mundo que eu quero descer”, disparou Raulzito na letra, citando o título da canção que também foi sucesso naquele 1976 na voz do folclórico e irreverente artista mineiro.

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O cearense Belchior e o mineiro Silvio Brito fizeram sucesso com músicas de protesto

E as referências não param por aí. Hermes Aquino e sua popular Nuvem Passageira, que também era constante nas rádios em 1976, está em Eu Também Vou Reclamar: “Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada pra escolher”. Há uma segunda citação no fim da música: “E sendo nuvem passageira, não me leva nem à beira disso tudo que eu quero chegar”. Por essas frases é possível interpretar que Raul considerava as músicas de protesto dos “reclamões” daquela época extremamente rasas e simplórias.

E como o título sugere, Raul também faz suas reclamações. Diante de notícias que repercutiram mundialmente na época, como a do piloto que roubou o MiG e do gelo em Marte descoberto por Viking, constata que “no entanto, não há galinha em meu quintal”. E aqui cabem algumas explicações.

Em 6 de setembro de 1976 o tenente Viktor Ivanovich Belenko roubou um caça MiG-25 para desertar das fileiras da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), pousando no Japão. Foi a primeira vez que a aeronave foi vista fora das fronteiras comunistas. Até então, era encarada como uma ameaça misteriosa pelos Estados Unidos.

Já o programa Viking foi uma iniciativa da Nasa para enviar duas sondas a Marte. Foi a missão mais cara e ambiciosa já lançada para o planeta vermelho, custando US$ 1 bilhão, mas também a mais bem-sucedida. Pela primeira vez um artefato humano pousou na superfície de outro planeta. Por isso o ano de 1976 entrou para a história da corrida espacial.

Por fim, em terras brasileiras, o “Milagre Econômico” chegava ao fim descortinando uma dura realidade: crise e inflação galopante. O que explica as referências de Raul a “prestação que vai vencer” e outros problemas cotidianos que afligiam a população.

Ou seja, Eu Também Vou Reclamar é um resumo raulseixístico, principalmente do cenário musical brasileiro, daquele 1976.