O ano era 1981. Raul Seixas não estava em sua melhor fase profissional. Pela primeira vez desde o início de sua carreira solo, em 1973, estava sem gravadora e não tinha um álbum novo para trabalhar. O mais recente fora Abre-te Sésamo, em 1980, pela CBS Discos. No entanto, rompera com a gravadora e ganhou fama de “artista difícil” entre os executivos da indústria fonográfica.

O hiato terminaria apenas em 1983, quando Raul Seixas lançaria um LP homônimo pelo Estúdio Eldorado e faria sucesso novamente de norte a sul do Brasil, dessa vez com a música O Carimbador Maluco. Apesar de estar longe dos estúdios, foi exatamente nessa fase a que o roqueiro baiano realizou shows monumentais, como o da Praia do Gonzaga, em Santos (SP), em 1982, e no Festival de Águas de Claras.

Realizado no interior do estado de São Paulo, no limite entre os municípios de Reginópolis e Iacanga (380 km da capital paulista), o Festival de Águas teve sua primeira edição em 1975. Retornaria em 1981, reunindo milhares de jovens nos últimos suspiros do movimento hippie. Sob música, ar livre, festa, paz e amor, ganhou ares de Woodstock tupiniquim e status de lenda. Flutuava entre o Rock e a MPB, mesclando teatro e circo.

O cartaz de divulgação do evento, que ocorreu entre os dias 4 e 6 de setembro, levava o nome de Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Morais Moreira, Hermeto Pascoal, dentre outros. Mas não o de Raul Seixas. O que leva a crer que a contratação do roqueiro para o festival pode ser se concretizado de última hora. Como único representante do Rock, porém, era um dos mais aguardados. E não decepcionou.

Raul Seixas 225 - Cópia
Raul Seixas no IV Festival de Águas Claras, em 1984

Raul Seixas subiu ao palco mais inspirado e anárquico como nunca se viu até então. Improvisou e distribuiu palavrões em quase todas as músicas. Agitou a massa com clássicos seus e do rock ‘n’ roll dos anos 1950, além de faixas do LP Abre-te Sésamo. Cantou a censurada Rock das ‘Aranha’. Proclamou que “isso aqui não é Woodstock, mas um dia pode ser” durante Como Vovó Já Dizia.

Preparado, montou um time de primeira linha. Convocou o argentino Tony Osanah para a guitarra solo, que por sua vez indicou o uruguaio Don Betto para o baixo. Osanah já havia tocado com Raulzito em Gita e com cantores como Tim Maia, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Roberto Carlos. O teclado ficou sob os cuidados do então jovem Olmair Raposo, que utilizou um piano elétrico CP70 Yamaha em Águas Claras. Na bateria, ficou o lendário Edu Rocha. Raul, por sua vez, empunhou sua clássica Guild 1954.

Felizmente, o show no II Festival de Águas Claras foi gravado em duas fitas K7 diretamente da mesa de som, em quatro canais. O material caiu no colo de Sylvio Passos, presidente vitalício do Raul Rock Club, que em 2014 viabilizou junto ao Estúdio Eldorado o CD Isso Aqui Não é Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser!. Posteriormente, o álbum foi lançado também em LP, sob edição limitada a mil cópias.

Raul Seixas participaria ainda de outras duas edições do Festival de Águas Claras: em 1983 (embriagado, diga-se de passagem) e em 1984. Coincidência ou não, o evento teve sua última edição um ano antes da estreia do Rock in Rio, que tomaria o protagonismo no Brasil como o principal festival de música do país, contando com atrações internacionais.