Apesar da fama, Raul Seixas fazia uso constante de apenas duas drogas: cocaína e álcool. Nunca utilizou entorpecentes injetáveis, pois tinha aversão a agulhas. Tampouco usava maconha, pois não gostava dos efeitos.

A cocaína fazia parte do processo criativo. Raul acreditava que o uso do pó branco agilizava e intensificava os pensamentos, facilitando a composição de novas músicas. Segundo depoimentos de quem conviveu com o cantor, a droga se tornou constante na vida do roqueiro depois de Krig-Ha, Bandolo!, no auge da parceria com Paulo Coelho.

O álcool, contudo, era bem mais frequente. E começou precocemente, já nas festas do consulado norte-americano em Salvador, onde eram fartas as ofertas de Rock, bebidas e cigarros. Conforme crescia a fama do roqueiro, aumentava também a compulsão.

Em todas as excursões que fiz através do Brasil junto com meu conjunto e empresários, devido à sempre ser bem-sucedido nas apresentações, voltava na euforia da vitória e isso era, por certo, um bom motivo para beber. Ainda no palco, cantando, não via a hora de terminar meus 45 minutos para “comemorar” no hotel com algumas fãs e colegas de trabalho. E era uma conversalhada danada, e como era de se esperar, entre fileiras e mais fileiras, entre esvaziar a geladeira e mandar o hotel repor as bebidas, eu atendia às expectativas dos fãs e de todo mundo, sendo como sempre o centro das atenções. Após a festa acabar e todos irem embora eu continuava bebendo e cheirando, sabendo que pela manhã tinha que pegar o avião e ir para o outro estado para outro show à noite. Bebia sozinho ou com alguém até o ponto de chegar a quebrar o hotel. Quebrava os espelhos da sala, cama, quebrava tudo e no outro dia a cidade que eu deixava estava com a notícia noticiando minha façanha.

A dependência do álcool é uma doença, além de ser um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de diversas outras enfermidades. Entre elas, por exemplo, a inflamação do pâncreas, conhecida como pancreatite, que acometia Raul de maneira crônica. Em 1979, o cantor precisou passar por uma cirurgia para remover uma parte consideravelmente grande do órgão.

O alcoolismo interferiu na vida pessoal e profissional de Raul Seixas. Arruinou seus casamentos e atrapalhou diversos shows. Um de seus álbuns (Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, de 1987) atrasou um ano em virtude das crises provocadas pela bebida. Kika Seixas, quarta companheira do roqueiro baiano, se viu obrigada a internar Raulzito algumas vezes, mesmo que compulsoriamente, com o objetivo de tentar tratar o vício em álcool.

RS e Kika
Raul Seixas, acompanhado de Kika, numa de suas internações no início dos anos 1980

Às vezes minha música estava tocando numa padaria que não queria me servir, mas por causa da minha música que tocava na rádio era eu servido pelo cara que por certo achava que eu tinha alguma importância. Eu salvo pelo gongo. Ali naquele momento, com pose de artista, eu aproveitava e bebia enquanto o cara achava que eu era o Raul Seixas e não um bêbado…

O alcoolismo deu a Raul Seixas um final dramático. O vício chegou a tal ponto que o cantor começou a cheirar éter etílico, o que determinaria o fim de seu último relacionamento, com Lena Coutinho. O estômago já não aceitava mais bebidas destiladas, como a vodca, e ele vomitava toda vez que tentava ingerir algo do tipo. Por isso, consumia apenas cerveja, mas em grandes quantidades.

Utilizei uma menina de onze anos, filha de Lena, para comprar éter na farmácia, pois já não vendiam para mim. Meu irmão, quatro anos mais novo do que eu, veio da Bahia para o Rio me visitar sabendo do meu problema. Eu sempre fui o seu herói e professor, ele sempre me respeitou. Hospedou-se lá em casa e me convidou para jantar fora. Minha ex-esposa não podia ir, pois tinha algo a fazer. Como eu não podia beber em sua frente, no restaurante, e a compulsão aumentava insuportavelmente, eu fui ao balcão e segredei ao barman para botar uma dose dupla de vodca na pia do banheiro. Sentei e conversei nervosamente com meu irmão dando tempo necessário para a trama. Pedi licença para ir ao banheiro, andei rápido, abri a porta e… O copo estava servido lá. Mas, no momento que pus as mãos em torno do copo, uma outra mão por detrás segurou a minha e tomou a bebida. Eu não ofereci resistência, e a bebida foi despejada na pia. Era meu irmão sério e determinado que me olhava fazendo-me esboçar um sorriso tímido e amarelo, bem infantil. Nunca me senti tão mal; foi uma experiência terrível.

Além da pancreatite, a diabetes e a hipertensão o acompanhavam, sendo necessário a injeção de insulina regularmente. Raul, porém, trocou a insulina pelo bar e perdeu a guerra para a pancreatite, sofrendo uma parada cardíaca fulminante em 21 de agosto de 1989.

(as citações deste texto são trechos de um relato escrito pelo próprio Raul Seixas em 31 de setembro de 1987 e publicado no livro O Baú do Raul, de Kika Seixas e Tárik de Souza)